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A história de superação e empreendedorismo de Rolando Vanucci

A grade de Administração e Marketing, do 16º Congresso APDESPbr, recebeu muitos nomes relevantes que compartilharam conhecimentos sobre gestão e empreendedorismo. Rolando Vanucci, conhecido pela marca Rolando Massinha, foi um deles. Pela primeira vez participando de um congresso organizado pela associação, apresentou ‘Uma história de vida com receitas de amor’. Um dos pioneiros da comida de rua no Brasil, o empreendedor dividiu com o público algumas orientações para alcançar o sucesso. Assim como contou os percalços e dificuldades que encontrou ao longo de sua caminhada. Uma história recheada de superação e um bom exemplo de empreendedorismo. Para registrar melhor essa história, conversamos com Rolando sobre o que colaborou para que ele chegasse até esse momento. Bem como a sua percepção diante a primeira experiência com o público da área da prótese dentária.

Minha história se resume no seguinte: passei dificuldades financeiras, sem profissão definida virei empreiteiro de obras e levei um grande prejuízo. Comecei a vender massas na rua e então tomei mais um grande tombo. Tive depressão, síndrome do pânico e fui morar na rua, dentro do meu foodtruck, até receber ajuda. Agora estou reiniciando o meu trabalho, a minha história e a minha vida.”

Uma experiência motivacional

Rolando em palestra no 16º Congresso. Foto: Arquivo APDESPbr

O tema da palestra apresentada por Rolando é quase homônimo ao título do seu livro, ‘Rolando Massinha – uma História de Vida Com Receitas de Amor’, lançado pela Editora Generale, em 2014. Para o 16º Congresso ele trouxe um pouco do que revelou no livro sobre a sua trajetória. Em resumo, uma tentativa de executar um bom prato na cozinha de casa que terminou como um case de sucesso no empreendedorismo.

A exposição de Rolando foi uma das últimas do segundo dia, dentre os três de evento. E ele deixou a sala bastante comovido. Isso porque Rolando não falou apenas dos obstáculos habituais aos empreendedores no início de um negócio. Mas também abordou temas comuns que podem transformar a vida das pessoas, como a depressão e a saúde mental.

“Foi uma das palestras mais empolgantes da minha vida. Apenas contar a minha experiência é fácil. Só que nessa palestra aconteceu uma coisa muito diferente. Porque além das perguntas que sempre foram feitas, as pessoas se envolveram demais. Senti uma gratidão fora do normal quando vi que todos se importaram com a minha história. Se importaram com a minha forma de pensar. Foi uma experiência humana muito especial para mim.”

O início na cozinha

O primeiro contato de Rolando com a gastronomia foi aos 19 anos, ao cozinhar para os amigos surfistas em um final de semana. “Fiz um arroz que era a própria maçaroca! Um arroz com mortadela. Mas, pelo fato de a mortadela por ter um aroma maravilhoso, acabou ficando gostoso. Todo mundo que estava na casa comeu, mas acho que é porque estavam com muita fome”, brincou.

Depois desse episódio ele passou algum tempo sem ao menos tentar cozinhar novamente. Até que, em torno dos 26 anos ele teve um insight no supermercado.  “Tinha lá uma massa fresca, com uma receita no verso da embalagem. Eu nunca tinha feito massa, muito menos lido uma receita. Mas aquela escrita no espaguete me interessou: um molho à bolonhesa com calabresa. Eu, com muita curiosidade, comprei a carne moída, a calabresa e os ingredientes que pedia. E fui fazer.”

Durante conversa compartilhando a sua história. Foto: Arquivo APDESPbr

O grande diferencial, o sabor, que fez das receitas de Rolando um grande sucesso da comida de rua de São Paulo surgiu de uma ideia durante a preparação da massa. “Eu tomava vinho, na época. Enquanto cozinhava, tomei um gole e coloquei uma dose no molho à bolonhesa. O aroma do vinho ficou superforte e eu achei muito interessante. Todos os que experimentaram também aprovaram.”

E, assim, o tempo passou. Sem uma profissão definida, Rolando construiu a carreira numa empresa do comércio varejista em Belo Horizonte, Minas Gerais. Após alguns anos, saiu da capital mineira rumo à São Paulo para gerenciar uma loja que a empresa tinha franqueado.

A primeira porta aberta

Porém, a nova realidade não se mostrou como ele imaginava. “Foi um grande engano. Eu cheguei em São Paulo e comuniquei ao meu patrão que estava voltando para BH. Eu me identifiquei muito com a cidade e retornei. Bati à porta de quem tinha me oferecido emprego antes e, infelizmente, essas portas foram se fechando. As oportunidades se fecharam a ponto de eu ir morar na rua. Até que eu tive a felicidade de conhecer uma família que me ajudou”, contou.

Diante à situação delicada de Rolando, a família lhe cedeu uma casa para morar, por tempo indeterminado. Os planos eram de demolição do imóvel para a construção de um prédio. Por isso, ao entregar as chaves, os proprietários disseram à Rolando que o empréstimo seria por um tempo indeterminado.

Eu agradeci por ter aquele espaço pelo tempo que me foi permitido. E então, tive a ideia de refazer aquele molho com vinho que eu aprendi lá atrás. Eu comprei os insumos todos e abri o ‘Per tiempo indeterminato’. Uma portinha na casa para vender meu macarrão, com nome inspirado pela frase que ouvi dos donos da casa. E assim comecei a vender o meu espaguete com molho à bolonhesa e calabresa ao vinho.”

Empreendedor nato

“Costumo dizer que sempre tive muita sorte. Pois mesmo passando por dificuldades, fui muito abençoado. Um mês após iniciar a venda de massas, eu saí como destaque na coluna social do jornal O Estado de Minas. Porque eu abria a casa à 22h e fechava às 6h. Isso há mais de 25 anos atrás era algo absurdo em BH. Em São Paulo era comum, mas na madrugada mineira era completamente novo. Assim eu atraí os jornalistas, o pessoal do teatro e notívagos. Trabalhei muito e venci”, relembrou.

O famoso espaguete com molho à bolonhesa e calabresa ao vinho. Foto: Acervo pessoal

A reviravolta

Após ter conseguido contornar o momento difícil que o levou de volta à cozinha com uma grande guinada, Rolando sentiu necessidade de retribuir o bem que tinha recebido. “Infelizmente ajudei a pessoa errada. Fui para São Paulo visitar meus pais e deixei essa pessoa cuidando da casa. Quando voltei, ele tinha limpado a casa. Roubou tudo o que tinha dentro. E eu, com a maior vergonha do mundo da família que me cedeu, fechei a casa e voltei para São Paulo no mesmo dia.”

Rolando contou que voltou em busca de retomar a vida, depois de ter o negócio forçadamente fechado. Esse episódio ocorreu próximo ao Carnaval. E a primeira oportunidade de trabalho veio com o convite de um colega, para que ele gerenciasse um trio elétrico no Guarujá, litoral paulista. Na quarta noite de trabalho, ele conheceu a sua futura esposa. Os dois engataram o namoro, ele morando na capital paulista e ela na Baixada Santista. Para terem mais tempo juntos, Rolando passava os finais de semana hospedado na casa da moça.

Uma oportunidade

“Numa ocasião ela tinha contratado um pintor para o apartamento em que ela morava com as amigas. Todas trabalhavam e então me pediram para aguardar pelo pintor, para acompanhar o serviço, pelo menos no primeiro dia. Eu fiquei, mas ele não apareceu.” Ao saberem que o homem não tinha aparecido, todas lamentaram, decepcionadas, e Rolando propôs uma solução.

Em registro no painel do evento, no 16º Congresso APDESPbr. Foto: Arquivo Cairós Comunicação

“Se vocês quiserem eu fico pra esperar. Elas concordaram e eu fiquei. Mas, no dia seguinte, ele também não apareceu. Então, no impulso, peguei a lata de tinta e comecei a pintar o apartamento. Não contei para ninguém que eu tinha começado a fazer o trabalho. E elas se mostraram impressionadas pelo pintor não ter deixado nenhuma sujeira. Até eu mesmo me impressionei por ter pintado daquele modo.”

Da massa à argamassa

Rolando ofereceu-se para permanecer no imóvel por mais alguns dias, a fim de acompanhar o suposto pintor. Até que foi descoberto por uma das moradoras que voltou pra casa mais cedo e, então, descobriu que era Rolando quem estava dando andamento na pintura.

“Elas gostaram tanto do trabalho que começaram a me indicar para outras pessoas. Eu era um bom pintor e não sabia. Aí a coisa foi crescendo e eu comecei a ganhar muito dinheiro. Em outro momento, comecei a ser perguntado se conhecia eletricista e outros serviços para indicar. Na terceira obra, quando me perguntaram o que mais eu fazia, respondi: conheço todo mundo, do que você precisa?! Tenho eletricista, pedreiro, tudo. E assim acabei virando empreiteiro de obras.”

“Me dei muito bem nessa área. Foram quase 15 anos como empreiteiro. Quando, infelizmente, um arquiteto e um engenheiro me deram um prejuízo financeiro imenso. Por conta disso, eu caí em depressão. Mesmo quando fui morar na rua, em Belo Horizonte, acho que também sofri de depressão. Mas não senti tanto, não no nível desta vez. Até porque eu nem sabia o que era depressão. Talvez eu tivesse passado por ela, sem senti-la. Porém, desta vez, eu tomei um tombo grande.” Rolando exemplificou o tamanho do dano financeiro.

“Para você ter uma ideia, eu tinha uma casinha na Serra da Cantareira avaliada em R$190 mil e a vendi por R$47 mil. Paguei algumas dívidas e com os R$20 mil restantes, no impulso, comprei uma Kombi. Completamente no estalo e sem linha de raciocínio nenhuma, comprei uma Kombi de hot dog. Quando contei para a minha esposa, ela me chamou de louco. E perguntou: você vai vender hot dog?! E falei: não, eu vou vender macarrão.”

Enfim, Rolando Massinha

Rolando em frente ao icônico veículo da sua marca. Foto: Acervo pessoal

Depois de 15 dias, Rolando estava na rua vendendo macarrão. “Nasceu a marca Rolando Massinha e me saí bem. A imprensa contribuiu muito para a minha fama. Apareci em mais de 60 programas de televisão, em jornais, revistas e todos os veículos possíveis. Dei muita sorte. Cheguei a ser garoto propaganda em uma montadora de carros. Tive 10 automóveis cedidos em comodato, 9 foodtrucks e 1 carro de passeio.”

A marca Rolando Massinha cresceu e se expandiu a diversos pontos de venda da capital paulista. Ele conta que chegou a ter a assinatura da prefeitura de São Paulo como uma referência de alimentação na cidade. Porém, durante entrevista ao vivo a um programa de televisão, Rolando fez uma declaração que desagradou os políticos vigentes. “A Operação Lava Jato se iniciava. E eu critiquei a falta de garantias e condições ao microempreendedor brasileiro. Não se tratava de partido. Os impostos são absurdamente desleais. Há toda uma estrutura a qual você fica muito dependente. Só que a administração pública enxergou isso com outros olhos. Eles tomaram como uma crítica pessoal e ficaram ofendidos. E aí, 18 dias depois, eu fui impedido de vender nas ruas de São Paulo.”

Entre subidas e descidas

“Foi quando eu perdi o rumo de vez e caí novamente em depressão. Depois tive síndrome do pânico. Foram quase nove meses convivendo com essa doença me consumindo, fazendo muito mal. E por não conseguir honrar as contas da minha casa, o pagamento do aluguel, do condomínio e até mesmo o convênio médico para a minha filha, eu saí de casa. Me senti inútil, me perdi de mim, deixei de me sentir como eu era. Deveria permanecer na minha casa, junto à minha família, mas eu me sentia muito inferior e usado. Sem condição psicológica nenhuma, muito menos financeira, eu fui morar na rua. Morei dentro do meu foodtruck por meses, até que recebi ajuda e fui acolhido na casa onde estou, há cerca de 1 ano. Retomando o Rolando Massinha, em um espaço de alimentação montado com containers.”

O espaço gastronômico em containers, na Zona Norte de São Paulo. Foto: Reprodução Facebook

Após altos, baixos e muitas situações que exigiram de Rolando superação e resiliência, hoje ele é capaz de se enxergar como um exemplo. “Relutei muito para me entender como uma referência. Eu não aceitava ser conhecido, por uma vaidade errônea. Me escondia atrás de uma humildade não genuína, que ofendia. Porque as pessoas chegavam até mim com entusiasmo e eu as afastava, ignorando. Por não querer mudar quem eu era. Hoje sinto que não é ruim ser famoso, porque é daí que surge a possibilidade de ajudar. As pessoas me veem como uma solução financeira e de mudança de vida. Perguntam como fazer para montar um foodtruck, como traçar a logística para implantar o seu negócio”, esclareceu.

Inspiração e Motivação

Ele relembrou uma situação surpreendente, quando participou do programa da Ana Maria Braga, na rede Globo. “Foi uma coisa louca, teve muita repercussão. Dei o meu telefone no programa, achando que ninguém sequer me ligaria. O meu aparelho não parou de tocar. No trajeto dos estúdios até o aeroporto, recebi uma chamada de uma pessoa de Roraima. Ela me relatou que estava planejando o suicídio, junto com o marido. E ao me virem no programa, tinham mudado de ideia. Se sentiram estimulados pela minha história e começaram a refletir que, apesar de dura, a vida também tinha boas saídas. E isso me marcou muito.”

Com a explosão dos foodtrucks no Brasil, Rolando foi constantemente lembrado como uma inspiração. Inclusive sendo citado pelo Sebrae como um case de sucesso, entre os empreendedores do ramo. Mesmo que tenha passado um tempo afastado da rotina do comércio de rua, a sua atuação ainda se mantém como referência. “Presto consultoria, porque trabalhar na rua é sinônimo de adversidade. Você fica exposto a tempestades, calor, vento e diversas situações desagradáveis. E o que eu puder fazer para ajudar a preparar quem quiser entrar nessa, eu farei.”

Porém, Rolando ressaltou que os seus conselhos são realistas. “O ‘não’ é a palavra mais sincera e honesta que existe. Muitas vezes, no empreendedorismo, você deve dizer não. ‘Não faça isso, não vou te ajudar, não é por aí’. Porque não quero iludir, nem enganar ninguém. Sempre procuro ajudar ao próximo, também como uma forma de retribuir, apesar da experiência que tive no passado. Afinal, estou na terceira ocasião em que precisei de ajuda e fui ajudado, mais uma vez.”

Rolando Vanucci em conferência sobre empreendedorismo. Foto: Acervo pessoal

A experiência no 16º Congresso APDESPbr

O convite para a participação no 16º Congresso APDESbr partiu do presidente do evento, Marcos Celestrino. Os dois se conheceram em um dos pontos de Rolando, em São Paulo. Em um reencontro, anos depois, Rolando atualizou o amigo sobre tudo o que tinha vivido. Ao ouvir a história, Marcos se sensibilizou. E enxergou algo que valia ser compartilhado na grade de Administração e Marketing.

Pela minha vida ter sido de muitos altos e baixos, ele prontamente viu uma inspiração motivacional. Valeu demais! Pra mim, foi um presente da APDESPbr e um presente pessoal do Marcos. Talvez ele não tenha se dado conta do bem que me fez. Eu sou muito grato à APDESPbr por ter tido essa oportunidade”, reconheceu.

Por fim, Rolando avaliou que a experiência no 16º Congresso foi reveladora em relação à sua autoimagem e futuro. “A gente pensa que, depois de velho, não tem mais conserto. E eu senti um ajuste depois da minha palestra. Desde então eu não paro de pensar em mudanças pessoais, em mudar o raciocínio. Tudo pelo o que ouvi das pessoas que se entregaram e se abriram comigo.”

E concluiu: “Eu tenho que aproveitar isso! Felizmente não caí nas drogas, não roubei e não fiz nada de errado que ferisse muito as pessoas. Talvez eu tenha me ferido, ferido a minha família, por não ter sido tão presente. Porque, no auge do Rolando Massinha, eu chegava a trabalhar em torno de 20 horas por dia. E isso fez com que eu me cobrasse demais. Não queria passar novamente pelo o que eu passei anos atrás e me cobrei por isso. Enfim, passei por novas situações tão ou mais difíceis quanto. Hoje eu resolvi me amar, me olhar no espelho e cuidar de mim. E espero, agora aos 59 anos, não descer mais.”

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Redação Canal da Prótrese

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