APDESPbr - O CANAL DA PRÓTESE ODONTOLÓGICA BRASILEIRA
Classificação de Angle

Classificação de Angle: conheça as classes das más oclusões

Responsável por grande parte do conceito de oclusão, Edward H. Angle, cirurgião-dentista, começou a se destacar por volta de 1890. Entre tantos feitos, a classificação ortodôntica das más oclusões teve destaque a partir de 1900. Com o tempo, o conceito sofreu algumas alterações pelo próprio criador, e é utilizado até hoje.

A relação de normalidade, também chamada de classe I, tem o primeiro molar superior permanente como chave de oclusão, e estes se encaixando com sua cúspide mésio-vestibular no sulco mésio-vestibular do primeiro molar inferior permanente.

Com base neste princípio, Angle classificou as más oclusões, como veremos a seguir.

 

A classificação das más oclusões de Angle

O cirurgião-dentista descreve as más oclusões da seguinte maneira:

  • Má oclusão de Classe I – Relação normal dos molares com interferência e/ou anormalidades no posicionamento dentário.
  • Má oclusão de Classe II – Primeiro molar inferior em posição distalizada em relação ao primeiro molar superior.
  • Má oclusão de Classe III – Primeiro molar inferior mesializado em relação ao primeiro molar superior.

Angle e seus seguidores não concordavam com a exodontia ou com o uso da força extrabucal por objetivos ortodônticos. Segundo ele, essas ações não eram necessárias para alcançar a oclusão ideal.

Após a II Guerra Mundial, a utilização de radiografias tornou-se mais acessível e observou-se que as más oclusões de classe II e III resultavam do relacionamento maxilomandibular deficiente, não apenas de dentes mal posicionados. Além disso, também foi possível analisar a interferência no crescimento e desenvolvimento da maxila e da mandíbula.

 

Alguns autores observam uma mudança do aspecto social no século XXI,  a ponto de não ser mais a função o principal objetivo da procura por tratamento ortodôntico, mas a estética facial.

“A mudança nos objetivos do tratamento representa uma mudança de paradigma, que se distancia de uma ênfase nas relações esqueléticas e dentárias e se direcionam para uma maior preocupação com os tecidos moles orais e faciais. Os tecidos moles agora são reconhecidos como a principal limitação do tratamento ortodôntico e com a principal consideração no julgamento do sucesso de tratamento… Deve-se ter em mente que a ortodontia é formada por determinantes biológicos, psicossociais e culturais. Por esta razão, na definição dos objetivos do tratamento ortodôntico devem considerar não somente os fatores morfológicos e funcionais, mas também uma ampla variedade de questões psicossociais e bioéticas” (Proffit – 2008)

Paradigma de Angle versus Paradigma do tecido mole: Uma nova maneira de analisar os objetivos do tratamento (Proffit – 2008)

Parâmetro Paradigma de Angle Paradigma do tecido mole
Objetivo primário do tratamento Oclusão dentária ideal Proporções e adaptações normais do tecido mole 
Objetivo Secundário Relações maxilares ideais Oclusão funcional
Relações entre tecido duro/mole Proporções ideais de tecido duro produzem tecidos moles ideais Proporções ideais de tecido mole definem os tecidos duros ideais
Ênfase no diagnóstico Modelos de gesso dentários, radiografias cefalométricas Exame clínico dos tecidos moles intrabucais e faciais
Abordagem do tratamento Obter relações dentárias e esqueléticas ideais, presumindo que os tecidos moles estarão bem Planejas as relações ideais do tecido mole e então posicionar os dentes e os maxilares como necessário para atingi-las
Ênfase na função ATM em relação à oclusão dentária Movimento do tecido mole em relação à exposição dos dentes
Estabilidade dos resultados Relacionada primariamente à oclusão dentária Relacionada primariamente aos efeitos da pressão/equilíbrio dos tecidos moles

Tabela 1 – Paradigma de Angle versus Paradigma do tecido mole

Apesar de alguns conceitos sofrerem mudanças, os princípios básicos ainda são válidos. Sendo assim, a classificação continua atual e muito útil para o tratamento reabilitador. 

É importante lembrar que o diagnóstico e o plano de tratamento devem ser conversados com o paciente. O motivo pelo qual agiremos de uma ou outra maneira também deve ser apresentado, pois precisamos ouvir os desejos que o levaram a procurar o procedimento. 

Além disso, o técnico em prótese dentária deve ser orientado quanto a esses objetivos. Assim, o aparelho a ser confeccionado pode coincidir com o plano de tratamento e os anseios do paciente.

A classificação de Angle é referência para um diagnóstico preciso. A seguir, entenderemos a classificação e suas subdivisões.

Classe I (Neutroclusão)

  • Oclusão normal (o objetivo ideal de todo tratamento quanto à relação das bases ósseas e dentárias).
  • Cúspide mésio-vestibular do primeiro molar superior ocluindo no sulco mésio-vestibular do primeiro molar inferior.
  • A relação incisiva deve apresentar um trespasse de até um terço do incisivo central superior por vestibular do incisivo central inferior.

Más oclusões:  

Classe I

Cúspide mésio-vestibular do primeiro molar superior ocluindo no sulco mésio-vestibular do primeiro molar inferior (Figura 2). Apesar de a relação molar estar correta, estão presentes alguns dos problemas citados na classificação de Lisher que fazem desta Classe I uma má oclusão.

Classificação de Angle classe das más oclusões
Figura 2 – Relação molar e de incisivos de classe I (padrão de normalidade).

Classe II – divisão 1 (Distoclusão)

Cúspide mésio-vestibular do primeiro molar superior ocluindo mesialmente ao sulco mésio-vestibular do primeiro molar inferior (Figura 3).

Classes de más oclusões
Figura 3 – Relação molar de classe II com molar inferior distalizado em relação ao superior. incisivo superior sem trespasse ideal, pode estar vestibularizado ou o incisivo inferior estar lingualizado. Geralmente é uma questão de crescimento não somente dentária.

Características da Classe II:

  • Comprometimento do perfil (retrognata)
  • Sobressaliência e Sobremordida excessiva
  • Pode vir acompanhada de extrusão dentária
  • Geralmente possui comprometimento da curva de Spee
  • Lábios hipotônicos
  • Pode induzir hábitos

Classe II – divisão 1 (Subdivisão)

Relação molar de um lado do paciente semelhante à citada em Classe II divisão 1, o outro hemiarco encontra-se em relação molar de classe I. A subdivisão é chamada como direita ou esquerda, dependendo de onde se encontre a relação de classe II (Figura 4).

Classes das más oclusões
Figura 4 – Perfil retrognata, pode apresentar problema de crescimento e/ou dentário.

Classe II – divisão 2

Cúspide mésio-vestibular do primeiro molar superior ocluindo mesialmente ao sulco mésio-vestibular do primeiro molar inferior e incisivos centrais. Ou incisivos centrais e laterais palatinizados, porém não cruzados (Figura 5).

Classes das más oclusões de Angle
Figura 5 – Perfil retrognata, problema esqueletal e dentário. Incisivos centrais ou centrais e laterais palatinizados.

Classe II – divisão 2 (Subdivisão)

Relação molar de um lado do paciente semelhante à citada em Classe II divisão 2, o outro hemiarco encontra-se em relação molar de Classe I. Incisivos centrais, ou incisivos centrais e laterais palatinizados, porém não cruzados. A subdivisão é chamada como direita ou esquerda, dependendo de onde se encontre a relação de classe II (Figura 6).

Classes das más oclusões de Angle
Figura 6 – Perfil retrognata, problema esqueletal e dentário. Incisivos centrais ou centrais e laterais palatinizados.

Classe III (Mesioclusão)

Cúspide mésio-vestibular do primeiro molar superior ocluindo distalmente ao sulco mésio-vestibular do primeiro molar inferior. A relação incisiva pode ser de topo a topo ou cruzada (Figura 7).

Classes das más oclusões de Angle
Figura 7 – Paciente prognata com relação incisiva de topo a topo ou cruzada. Pode ser uma falsa classe III, quando é possível a correção sem cirurgia, ou verdadeira classe III quando caso cirúrgico (deve ser avaliado com a documentação cefalométrica).

Características da Classe III

  • Deformidade facial
  • Perfil côncavo
  • Mento e lábio inferior protruído
  • Mordida cruzada posterior e mordida cruzada anterior ou de topo 
  • Geralmente causado por uma maxila retrognata, ou por um misto de retrognatismo maxilar e prognatismo mandibular

Classe III (Subdivisão)

Relação molar de um lado do paciente semelhante à citada em Classe III, e o outro hemiarco encontra-se em relação molar de classe I. A relação incisiva de topo a topo ou cruzada (Figura 8).

Classes das más oclusões de Angle
Figura 8 – Perfil retrognata, geralmente não tão severo, com relação incisiva de topo a topo ou cruzada. Pode ser uma falsa ou verdadeira classe III.

Referência Bibliográfica:

GRABER. T.M.; NEUMANN, Bedrich., Aparatologia Ortodôntica Removible, Ed. Editorial Médica Panamericana, 1a edición. Buenis Aires Argentina. 1982.

HOUSTON, W.J.B., Orthodontic Diagnosis. Ed. Bristol: John Write & Sons Ltd. 1975.

PROFIT, William R.; FIELDS Jr., H.W.; SARVER, D. M., Ortodontia Contemporânea, Elsevier Editora Ltda. 3a edição. São Paulo – SP Brasil. 2008.

 

Leon Daghlian, técnico em prótese dentária, especialista em Ortopedia Funcional dos Maxilares e em implantodontia, professor de orto-ortopedia e secretário da SOBOTA. (Instagram @dentearte)

 


SOBOTA Sociedade de Orto Tecnologia Avançada

SOBOTA Sociedade de Orto Tecnologia Avançada

Deixar um comentário