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Conheça a dinâmica do uso de um dispositivo intraoral de ortopedia funcional dos maxilares

Os dispositivos intraorais de ortopedia funcional dos maxilares, ou aparelhos de ortopedia funcional dos maxilares, são confeccionados por técnicos em prótese dentaria, os ortotecnicos. Estes assumem a parte de confecção da peça protética no tratamento odontológico que inclui diagnostico, plano de tratamento, definição do aparelho ortopédico funcional, moldagem, definição da mudança de postura terapêutica, confecção do dispositivo intraoral, instalação do dispositivo e acompanhamento.

Deste modo, os ortotecnicos são parte importante de um tratamento que define uma nova oclusão e interfere na formação óssea, em sua fase de desenvolvimento. Como explica Dr Walter Alborghetti Filho, cirurgião-dentista, ortodontista, ortotecnico e professor universitário, o conhecimento é muito importante para que essa integração flua da maneira adequada. A responsabilidade de ambos deve estar muito bem definida e a comunicação com bom entrosamento para que possam oferecer o tratamento desejado.

A definição da mudança de postura terapêutica planejada pelo cirurgião-dentista deve ser encaminhada ao laboratório de prótese dentária pelo consultório odontológico. Sabemos que muitas vezes isso não ocorre, por falta de especialização do próprio dentista. Por isso ambos devem estar comprometidos e terem o conhecimento necessário para a boa realização dos casos. Ao mesmo passo o técnico em prótese dentária deve conhecer a teoria, os princípios e funcionalidades que nortearão a confecção de um aparelho ortopédico funcional perfeito.

A aula ‘Modeladores elásticos de Bimler’

Esse conteúdo foi retirado da aula ao vivo gravada na sede da APDESPbr em São Paulo, para a qual o professor trouxe o tema ‘Modeladores elásticos de Bimler’. Mas, antes de entrar no tema propriamente, frisou a necessidade de falar diretamente com os ortotecnicos ainda iniciantes nesta área, para lhes transmitir o conhecimento básico necessário ao desenvolvimento deste trabalho interdisciplinar. E é esta parte da aula que trazemos nesta matéria.

O objetivo foi apresentar a teoria e a prática da confecção dos aparelhos modeladores elásticos de Bimler do início ao fim do tratamento. E concluiu apresentando um caso de certa complexidade para demonstrar a prática laboratorial e clínica deste tratamento odontológico. Foram apresentados os 3 modelos A, B e C e suas derivações, conforme o caso clínico, em 16 desdobramentos. Mas vamos nos ater na dinâmica em boca e nos princípios fundamentais que nortearão o trabalho do ortotecnico.

A dinâmica do uso dos dispositivos intraorais no tratamento de ortopedia funcional dos maxilares

Como bem destaca Dr Walter, “para quem já trabalha com ortopedia funcional, talvez esta aula sirva como uma revisão, mas para quem nunca fez é importante conhecer esta teoria. É para estas pessoas, especialmente, que eu quero falar agora, para estes técnicos. ”

 

A pergunta básica é: qual é a consequência do uso deste aparelho na boca de uma criança? – A partir de agora, vamos às respostas e na produção de texto com base nas palavras de Walter Alborghetti Filho, quando ele explica a dinâmica do funcionamento destes dispositivos na cavidade oral e seus princípios fundamentais (título seguinte).

1) Desoclusão

A primeira coisa que acontece quando instalamos o dispositivo intraoral é uma desoclusao. Só de colocar o aparelho a criança vai passar a morder diferente – isso é desocluir – os dentes dela já não vao encostar da mesma forma que encostavam.

2) Realinhamento mandibular

A mandíbula, que é o único osso móvel da cabeça, vai acabar tomando uma nova posiç;ao. Uma posição que é uma mudança de postura terapêutica, que faz parte do tratamento.

3) Realinhamento articular

E quando nós mudamos a posição da mandíbula, obrigatoriamente, nós temos o reposicionamento da articulação tempuro mandibular. Entao, veja como é importante isso: uma criança que está em crescimento, em desenvolvimento, sofre alteração da posição de sua mandíbula e consequentemente das articulações da cabeça. Isso é muito sério, isso é muito importante. A gente tem que fazer isso com excelência, realmente, com muita preocupação.

3) Aumento da dimensão vertical de oclusão – trabalhar em DVR

Quando abrimos a boca da criança para colocar o aparelho ela já vai fechar a boca num aumento da dimensão vertical de oclusão. E esse aparelho tem que trabalhar em um espaço que chamamos de dimensão vertical de repouso – que é o espaço funcional livre que existe para colocar o aparelho dentro da boca.

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4) Aumento de salivação

Quando estamos sem nada dentro da boca e colocamos uma bala percebemos um aumento de salivação. Isso porque o corpo é inteligente, as glândulas percebem a presença de algo, que talvez possa ser digerido, e aumenta a salivação para ativar esse processo. O mesmo acontece quando colocamos um aparelho na cavidade oral, há um aumento de salivação, seguindo a mesma lógica.

5) Aumento de deglutição – MPT

Quando aumenta a salivação o estimulo posterior é a deglutição, para que possamos engolir essa saliva gerada. Na deglutição é o único momento em que buscamos um contato dos dentes. É automático: quando vamos engolir nós encostamos os dentes. Mas agora, com o aparelho entre os dentes, no momento que essa criança for engolir ela vai colocar a mandíbula numa posição terapêutica, numa posição de tratamento. Por isso que o aparelho é importante.

Se por estatística, nós engolimos saliva mais de 2 mil vezes por dia, imagina quantas vezes será feito esse movimento funcional de deglutição no tratamento de colocar a mandíbula numa posição melhor, mais favorável. Então, essa é a grande magia do tratamento ortopédico funcional. (Walter Alborghetti Filho)

Mas como isso acontece? Como funciona? Agora nós vamos discorrer sobre os princípios fundamentais para que o tratamento siga esta dinâmica citada acima.

Os princípios fundamentais das técnicas ortopédicas funcionais

Dr Walter Alborghetti Filho citou, entre outros autores, Dra Wilma Alexandre Simoes, e seu livro ‘Ortopedia Funcional dos Maxilares’ de onde trouxe essas informações. Livro apresentado na bibliografia desta aula, quando Walter, inclusive brinca: “esse livro é uma bíblia, a gente pode até dormir em cima dele pra ver se, por osmose, a gente ‘pega’ um pouco de sabedoria.”

Vamos aos princípios fundamentais das técnicas ortopédicas funcionais extraídos do livro Ortopedia Funcional dos Maxilares.

  • Excitaçao neural

Se trata do impulso nervoso que promove excitação de articulações, músculos, periodonto, mucosa, periósteo, e outras estruturas, gerando um equilíbrio no sistema estomatognático. Estes impulsos são provocados por estímulos dados através de aparelhos ortopédicos funcionais aplicados dentro de padrões adequados de tempo, intensidade e qualidade.

Sobre este estudo Walter afirma que não há receita de bolo, é preciso estudar a dinâmica do aparelho ortopédico funcional para obter bons resultados. Mas que, em contrapartida, os resultados parecem mágica. Em alguns meses se percebe uma grande transformação e a satisfação de paciente e profissional é animadora.

  • Mudança de postura

Os aparelhos ortopédicos funcionais agem sempre bimaxilarmente, modificando a posição da mandíbula para a obtenção de resultados clínicos mais rápidos.

  • Mudança de postura terapêutica

A palavra terapêutica se refere ao tratamento, portanto, a uma mudança de postura em que se obtém o tratamento pretendido. Essa mudança de postura segue sempre os limites fisiológicos individuais e proporciona um resultado efetivamente mais rápido se for possível o contato entre os incisivos dentro de uma determinada área.

Neste momento Dr Walter explica o que é a citada D.A – determinada área

Esse termo citado, criado pela Dra Wilma Simões, ‘determinada área’, é o contato entre os incisivos superiores e inferiores que deve ser no terço incisal da face vestibular dos incisivos inferiores e no terço incisal da face palatina dos incisivos superiores.

O professor afirma que quanto mais a gente estuda mais a gente vê que isso acontece desde o nascimento. Do crescimento, à amamentação, à erupção dos primeiros incisivos, decíduos, que acontece entre 6 e 8 meses de vida, e começa a dar orientação à mandíbula. Então, os primeiros dentes que erupcionam são os incisivos e eles começam a dar uma referência pro nosso sistema nervoso central de onde essa mandíbula deve ficar.

Quando o paciente não tem essa referência, no caso de mal oclusão, a gente busca fazer um tratamento que devolva a essa mandíbula, através dos incisivos, um contato ideal, um contato em determinada área. Esse contato vai fechar um circuito nervoso que manda informações ao nosso cérebro que devolve em forma de posição muscular.

Sempre se consegue chegar no contato ideal (d.a)?

Não, nem sempre, afirma Dr Walter. Hoje nós trabalhamos com uma mudança de postura terapêutica entre 3 e 4 milímetros para ficar mais confortável para a criança. E fazemos uma terapia escalonada, promovendo ajustes e refazendo o aparelho, se for o caso. Por isso o técnico em prótese dentária deve ter as informações necessárias para a ideal confecção deste aparelho ortopédico funcional.

Mensagem final – integração clínica-laboratorial

Nós, dentistas e protéticos, devemos estudar cada vez mais juntos para que a nossa profissão seja uma só, que busca esse lado humano para o nosso paciente. Veja, o dentista trabalha na boca, o técnico trabalha em laboratório – qual é a diferença?

O material humano é o mesmo. Mas o técnico precisa pegar as informações transmitidas pelo dentista, confeccionar o aparelho perfeito … vou repetir: confeccionar o aparelho perfeito e devolver para o dentista, que vai instalar na boca do paciente. Portanto, se não tivermos esse conjunto de duas profissões trabalhando em perfeita harmonia, não teremos o resultado ideal para o paciente.

Então, essas profissões precisam ser únicas, precisam ser uma coisa só. E se vocês me permitirem eu vou acrescentar mais uma que é a fonoaudiologia. Um tratamento com um fonoaudiólogo pode ajudar muito dependendo dos casos, de algumas patologias, como mordida aberta, entre outras.

Ele que é presidente da Sociedade de Orto Tecnologia Avançada – a SOBOTA – tem como objetivo elevar o nível do profissional técnico em ortodontia no Brasil (Assista ao vídeo aqui). Recentemente, anunciamos a parceria entre APDESPBR E SOBOTA que vai proporcionar diversas oportunidades de aprendizado com uma grade científica de alto nível ao profissional técnico em nossa sede, em São Paulo, e nos eventos organizados pela Associação dos Técnicos em Prótese Dentária do Brasil.

Continua, não desanima, porque isso é muito legal. Isso é muito interessante. Vamos estudar juntos! (Walter Alborghetti Filho)

Com uma mensagem final desta do próprio Dr Walter, só nos resta dizer que estamos com você nessa. Acompanhe nossas redes, o Canal da Prótese, a nossa programação de cursos, nossos eventos e fique de olho nas oportunidades de aprimoramento. O conhecimento é o que te diferencia, melhora seu rendimento e a qualidade de vida de todos os envolvidos nesta atividade. 😉

 

Redação Canal da Prótrese

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